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O Labirinto da Liberdade: Desenhando Ruas (In)visíveis na Boa Água
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O Labirinto da Liberdade: Desenhando Ruas (In)visíveis na Boa Água

Neste 25 de abril, quando celebramos a palavra "Liberdade" como um compromisso histórico com a consciência e a justiça, o Agrupamento de Escolas da Boa Água oficializa o seu lugar no ecossistema das artes e dos afetos. O nosso Plano Cultural de Escola (PCE), "Ruas (In)visíveis: artes, lusofonias e palcos", não se pretende um catálogo de eventos, mas uma arquitetura de encontros que procura, acima de tudo, indestinar a vida de quem por aqui passa.

Indestinar é a coragem de recusar o percurso traçado pela inércia, devolvendo à escola o seu potencial de transformação social através da cultura. É nesta inquietação que ancoramos o nosso propósito, lembrando as palavras de Byung-Chul Han em Vita Contemplativa: «A vida ganha em tempo e em espaço, em duração e em amplitude, quando recupera a capacidade contemplativa». Na Boa Água, as artes ensinam-nos precisamente esta lição da gratuidade — a de um tempo liberto de utilitarismos, um "espaço franco" onde o prazer desinteressado e o brincar se sobrepõem à ditadura da eficiência.

O nosso caminho tem sido uma lenta floração de afetos e saberes, onde o território se transfigura em palco. Vimos as ruas tornarem-se visíveis no pulsar de um Camões declamado em beat e corpo, e tecemos redes de pertença com o PIPA, a Voz do Alentejo, o Chapitô e o Conservatório Regional de Palmela, transformando a vizinhança num ecossistema sem muros. Na nossa Feira de Artes e Ofícios (FAO), as mãos que guardam segredos ancestrais de Sesimbra cruzaram-se com as cores da Moldávia, provando que a democracia cultural se faz valorizando o que já existe em cada quilómetro quadrado e encontrando, verdadeiramente, "em cada rosto igualdade".

Esta igualdade de vozes manifesta-se por estes dias na deriva da galeria de arte que viaja do Pinhal do General até ao coração da nossa celebração, onde as turmas do 3ºA e 4ºA, guiadas pelo olhar das professoras Cila Torres e Ana Caeiro, nos oferecem a reinterpretação do mundo pelos mais pequenos. Nos seus trabalhos, os alunos retrataram figuras como Pablo Picasso, Salvador Dalí, Frida Kahlo ou Paul Franklin, provando que as manifestações culturais são a mediação necessária para o reconhecimento pessoal de cada um e da comunidade que projetamos.

Esta celebração lembra-nos que o Plano Nacional das Artes é uma casa de portas abertas onde todos cabem, sem a pretensão de uma "tábua rasa" ou de estar a começar do zero. Pelo contrário, o PNA nasce para enquadrar e potenciar os muitos projetos de qualidade que habitam a nossa escola, nomeadamente o trabalho persistente daqueles que já desenvolvem regularmente as artes numa perspetiva de ensino. Sabemos que a vitalidade artística do nosso agrupamento é de tal forma efervescente que muitos destes processos aguardam ainda o momento de se cruzarem com esta estrutura que nos agrega. É neste convite ao encontro que procuramos uma articulação mais profunda, cientes de que este diálogo beneficiará toda a comunidade: ao unirmos esforços, imprimimos uma maior coerência à relação Escola-Comunidade, transformamos as artes num currículo integrador e transdisciplinar e, acima de tudo, garantimos que o talento dos nossos alunos ganha a visibilidade e a escala que merece, democratizando o acesso de todos à fruição e criação cultural.

Diante destes retratos, ecoamos a interrogação que Daniel Oliveira lançou ao artista Vhils: quem decide, afinal, o que "cabe" dentro de um museu? Recusamos o juízo preconceituoso que afasta o olhar da beleza inesperada das novas linguagens, entendendo que a cultura é o depósito de humanismo que nos permite habitar a complexidade.

Este projeto constrói-se também na formação da Academia PNA, onde o corpo docente se permite reconfigurar horizontes, preparando-nos para o "tempo demorado" da descoberta.

Como gesto final de emancipação, lançamos hoje o podcast "Libert’arte", um arquivo vivo de vozes onde a arte e a educação se dizem no plural. Para inaugurar esta ponte entre o pensamento e a ação, conversamos no primeiro episódio com Susana Silvério, Coordenadora Intermunicipal do PNA, cuja presença simboliza o diálogo essencial entre a escola e a comunidade cultural. Como Sophia de Mello Breyner Andresen proclamou, a cultura não serve para enfeitar a vida, mas para a transformar[1] — para que possamos construir-nos em consciência e liberdade. No Agrupamento de Escolas da Boa Água, acreditamos que a educação é o gesto de desatar os nós do destino, permitindo que a cultura seja o sopro que levanta o voo no peito de cada aluno, para que possam, enfim, habitar o céu que escolherem inventar.

João Reigado